Manuel Piedade Cabecinhas

Olaria Cabecinhas - Manuel da Piedade Pedrosa Cabecinhas - Cavadas da Bouça

A Olaria na minha família vem de geração em geração. Daquilo que me lembro e que me foi relatado pelos meus pais, esta arte de trabalhar o barro já foi o “ganha pão” de muitos dos meus antepassados. Em menino lembro-me bem de estar na “tenda” do meu avô, nos Andrezes. (O ti Manuel Cabecinhas conhecido...) Lembro-me ainda de ver os oleiros a calcar o barro com os pés. Mais tarde vieram as chamadas “marombas”, tocadas com os bois e permitiam amassar o barro de forma mais rápida e menos dolorosa dando assim um pouco mais de alívio ao homem evitando que fosse pisado com os pés.


            O ajudante escolhia o barro retirando as pedras, raízes e as impurezas que o barro contém. Competia ainda ao ajudante fazer o pelão, na banca. O oleiro pegava nele, colocava-o na roda, pedalando com um dos pés e trabalhando com as mãos, vai dando forma às bonitas peças típicas da altura. Alguns exemplos: O alguidar, o cântaro, os tachos, as almotolias, as “enfusas”, (para o vinho) os vasos, os potes (para o azeite), os fogareiros, (para assar as castanhas), e  muitos mais...  


            A forma de secagem das peças era o método natural. Seguia-se a raspagem. Depois de completamente secas segue-se a enfornagem, com muita delicadeza e experiência eram colocadas no forno a lenha. O processo de cozimento da louça era lento. Começava com o tempero, colocando na “caldeira,” pequenas quantidades de caruma, ou mato, dando tempo ao pré aquecimento, que demorava cerca de duas horas. Logo de seguida e com a ajuda do “forcado” o oleiro vai colocando mato até atingir as temperaturas desejadas dependendo da “Chacota” ou do “vidrado”. No final da cozedura havia, como tradição, o “servido”: vinho quente, com açúcar, numa “xícaratradicional. Servia para atenuar o rescaldo do calor e o cansaço. Evitavam correntes de ar e vestiam casacos quentes, para não se constiparem!


O meu avô sempre trabalhou o barro com os filhos a seu lado e quatro deles seguiram-lhe as pegadas, agarraram a Arte da Olaria, começando pela Maria, o José Cabecinhas, o Luís Cabecinhas e Manuel Joaquim Cabecinhas que dedicou quase toda a sua vida a trabalhar o barro.


            Foi com ele que eu comecei a tirar as raízes do barro e o gosto de o trabalhar. Trabalhei até aos 23 anos ao lado do meu pai. Por motivos de saúde foi obrigado a por fim a atividade, deixou a arte. Pediu-me para continuar e ficar a trabalhar na tenda dele e fornecer os seus clientes muito antigos. Disse-me que seria muito bom ficar alguém da família a trabalhar arte do barro.


            Foi nessa altura que arrumei a minha vida e lá fiquei eu na tenda do meu pai procurando dar resposta às muitas encomendas fazendo eu a maior parte das peças que ele, por motivos de saúde, cansaço e idade não conseguia fazer. Trabalhei na tenda mais três anos. Depois, por motivos vários, fui obrigado a suspender a atividade e parar. Passei por diversas profissões ao longo de nove anos: operário fabril, ajudante de pedreiro, agricultura, etc. Foram novas experiências vividas ao longo da vida. Depois, com a situação familiar melhorada e ao ver os filhos crescer, pensei que seria bom dar-lhes uma oportunidade de futuro.


            Voltei às origens! “O bichinho da Olaria” ainda estava presente. Decidi então apostar num projeto: Criar uma olaria de raiz. Foi um arranque difícil. Comecei dum nada deixando perder tudo com uns milhares de contos em cima dumas telhas e mais equipamento. Esta situação fez-me olhar para exterior à procura de clientes mostrando e divulgando as minhas peças até conseguir entrar no mercado (de vendas).


            Ao longo do ano fui conseguindo os meus objetivos. Muitas exposições, muitas saídas com trabalho ao vivo fizeram com que eu entrasse no mercado com peças mais variadas. Ao fim de dois anos deixei as feiras começando por entrar em força, com alguns milhares de peças nos armazéns das lojas dos trezentos e comercializando também para o estrangeiro. Havia também a panela do polvo, chamada alcatruz. Fabricaram-se aos milhares durante alguns anos, mas não se deixaram de fabricar as bonitas peças tradicionais, embora com alguma criatividade e imaginação, numa perspetiva de criar novas peças: os potes para decoração, os alguidares, os tachos, os cântaros...Algumas destas peças perderam-se porque não há saída no mercado, mas outras ainda se conseguem fazer e vender.


            Obtive muitos conhecimentos em inúmeras saídas a exposições, feiras medievais. Tenho no meu currículo cerca de 80 certificados de presença, duas saídas ao estrangeiro, sempre a trabalhar o barro ao vivo. Tive o privilégio de ser convidado para o programa Jardim das estrelas, onde trabalhei com a antiga roda de oleiro, movida com o pé. Estive num programa da RTP 70x7, num congresso da Ação Católica, onde expus e trabalhei ao vivo. Todas estas saídas levaram longe o nome da Bajouca!


            Vou tentando deixar algumas raízes aos meus filhos. É do barro da Bajouca que se moldam as mais bonitas peças. Há algum tempo atrás a preparação do barro era feita por cilindros e passava por fieiras. Atualmente o processo está mais modernizado, é feito por prensagem líquida. O barro é posto numa tela de transporte que o leva para um depósito. O barro é triturado, por uma hélice industrial, chamada “turvo”, que passa o barro a líquido, passa por um tubo que o despeja num segundo depósito. Passa por um crivo industrial  onde são retiradas as areis e as impurezas. Daí passa por um chupador que dá ligação a uma bomba de secagem, com prensas e filtros, terminando aí o processo.

            A vidragem das peças por norma aplica-se a peças decorativas ou utilitárias.

            O processo que utilizo para a cozedura é o forno a gás.

 

           

Um apelo à família ... e não só

            Peço aos meus filhos e a todos os filhos da olaria da Bajouca que sejam  herdeiros e seguidores duma arte a que  os nossos antepassados tanta vida dedicaram e  que a qualquer momento pode desaparecer, ficar esquecida e perder-se de vez.

 

 

Manuel da Piedade Cabecinhas


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